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Teorias são muito importantes tanto para a ciência quanto para a prática. O conhecimento a respeito de um determinado fenômeno avança quando as premissas e predições derivadas de um modelo teórico são cientificamente testadas. Além disso, uma teoria pode ser utilizada na prática como um guia operacional para os profissionais trabalharem de forma mais organizada no dia a dia.

Um importante modelo teórico sobre o processo de preparação física foi recentemente proposto e pode ser aplicado a qualquer modalidade esportiva. Um de seus objetivos é definir e organizar constructos essenciais acerca da preparação física, permitindo assim uma compreensão mais adequada da finalidade dos testes e medidas psicofisiológicas realizados pelos atletas.

Neste texto, destaco três constructos de grande utilidade prática dentro do contexto da preparação física para o voleibol: carga externa, carga interna e efeitos do treinamento.

Constructo 1
Carga Externa
Quantidade de trabalho físico a que o atleta foi exposto no treinamento — não necessariamente o que foi planejado.
Constructo 2
Carga Interna
Respostas psicofisiológicas experimentadas pelo atleta durante o treinamento — o nível de estresse imposto ao organismo.
Constructo 3
Efeitos do Treino
Aquilo que ocorre ao atleta depois de uma única sessão ou de várias sessões de treino — agudo ou crônico, positivo ou negativo.

Carga Externa

A carga externa diz respeito à quantidade de trabalho físico que o atleta foi exposto no treinamento. Ela pode ser quantificada no treinamento de força e potência pelo peso levantado, pela velocidade de execução do movimento, pelo número de séries, pela quantidade de exercício por grupamento muscular etc.

Com o avanço da tecnologia, é possível quantificar a carga externa também nos treinos de quadra, técnicos ou táticos. Equipamentos com sensores de movimento podem ser acoplados nos jogadores, retornando informações como porcentagem de movimento de alto impacto, quantidade de saltos, número de acelerações e desacelerações.

Um estudo recente mostrou que a carga externa semanal medida por sensor inercial estava negativamente associada à qualidade de sono e positivamente associada à percepção de fadiga de atletas profissionais de voleibol masculino. Em outras palavras: atletas que acumulavam mais carga externa tinham pior qualidade de sono e maior percepção de fadiga.

Carga Interna

A carga interna diz respeito às respostas psicofisiológicas experimentadas pelo atleta durante o treinamento. No voleibol, a frequência cardíaca tem utilização bastante limitada — os exercícios são de altíssima intensidade e curta duração, realizados de forma intermitente com períodos suficientes para recuperação quase completa.

Percepção de Esforço da Sessão

Uma alternativa simples e muito valiosa é a quantificação da percepção de esforço, definida como um julgamento de quanto uma tarefa física está difícil, pesada, trabalhosa ou extenuante — baseado na sensação de esforço para comandar os músculos e na sensação de quanto a respiração está intensa.

Quando o atleta recorda uma "média" da sua percepção de esforço 10 a 30 minutos após a sessão, essa é considerada a percepção de esforço da sessão de treino. Para o cálculo da carga interna, basta multiplicar esse valor pela duração da sessão em minutos.

CARGA INTERNA = PERCEPÇÃO DE ESFORÇO × DURAÇÃO (min)
Método CR10 ou CR100 de Gunnar Borg — aplicado 10 a 30 min após a sessão

Monotonia e Strain

A partir da carga interna, é possível derivar métricas importantes sobre os microciclos de treinamento:

Monotonia
Variabilidade da carga interna durante um microciclo. Calculada pela média semanal dividida pelo desvio padrão. Valores altos estão associados a maior risco de lesão e infecções de vias aéreas.
Strain
Magnitude do microciclo de treinamento. Calculado pela monotonia multiplicada pela somatória da carga interna da semana. Valores elevados indicam semanas excessivamente pesadas.

Um estudo em jogadores de elite mostrou que altos valores de monotonia estavam associados com pior desempenho no salto contramovimento. Evitar monotonia alta parece ser importante para preservar o desempenho de salto de atletas profissionais de voleibol masculino.

Efeitos do Treinamento

O efeito do treinamento pode ser definido como aquilo que ocorre ao atleta depois de uma única sessão ou de várias sessões de treino. Cabe ao preparador físico escolher ferramentas que apresentem critérios científicos atestando sua confiabilidade — e que sejam viáveis de utilizar.

Agudo Positivo
Curto prazo
Prontidão imediata para o treino ou competição após uma sessão.
Agudo Negativo
Curto prazo
Fadiga acumulada após uma sessão ou microciclo de treinamento.
Crônico Positivo
Longo prazo
Adaptações e melhora do desempenho após período de treinamento.
Crônico Negativo
Longo prazo
Overtraining, lesões recorrentes ou queda de desempenho prolongada.

Testes de Salto

Os testes de salto podem ser utilizados para rastrear um efeito negativo agudo do treinamento (fadiga), tanto de uma sessão para outra quanto de um microciclo para o seguinte. As variáveis mecânicas (tempo até o pico de força, tempo de voo, taxa de desenvolvimento de força) pioram antes do desempenho no salto — sugerindo maior sensibilidade na detecção precoce da fadiga.

Um estudo recente mostrou forte associação negativa entre o desempenho no squat jump e a carga interna acumulada nas duas primeiras semanas de pré-temporada. Isso sugere que atletas com maior capacidade de salto possuem maior tolerância ao treinamento — reforçando a importância de desenvolver essa capacidade.

Medidas Psicológicas: não as subestime!

Escalas e questionários aplicados diariamente são ferramentas muito utilizadas para rastrear os efeitos agudos do treinamento. Um exemplo é o índice de bem-estar (Hooper), composto de cinco constructos: fadiga, qualidade do sono, irritação, dor muscular e cansaço.

As evidências disponíveis sugerem que as medidas psicológicas (subjetivas) são as que melhor rastreiam as variações na carga interna. Quando a carga interna aumenta, as medidas psicológicas pioram — indicando fadiga e pouca prontidão. Quando diminui, melhoram — indicando recuperação adequada. Não subestimem as medidas subjetivas!

Referências Bibliográficas

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  8. Saw AE, Main LC, Gastin PB. Monitoring the athlete training response: subjective self-reported measures trump commonly used objective measures. Br J Sports Med. 2016;50(5):281-91.
TL
Thiago Ribeiro Lopes, PhD
Pesquisador do Laboratório de Fisiologia do Exercício do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Especialista em monitoramento do treinamento e fisiologia aplicada ao esporte de alto rendimento.

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