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Se você já "treinou" vôlei, certamente já ouviu frases do tipo: "sempre coloque esse (ou aquele) pé à frente para fazer manchete", ou então... "sempre que isso acontecer, faça assim." E se você já ouviu frases do gênero, provavelmente em algum momento alguma dessas instruções realmente lhe ajudou, e em outros momentos não. E quando não funcionou para você, provavelmente não foi por má vontade sua, ou por falta de esforço. Às vezes as coisas não dão certo. Pelo menos não do jeito que lhe pediram.

Então, por alguma razão, talvez por amor ao esporte, você superou explicações mal dadas, exercícios ou jogos incompreendidos, instruções sem sentido. Tudo por uma razão: você simplesmente queria jogar vôlei.

O fato é que se você está lendo este artigo, provavelmente você é um Professor de voleibol, ou mesmo um técnico na modalidade. Se você ensina voleibol, qualquer que seja o ambiente, ou o fim da atividade, talvez esse artigo possa lhe ajudar a compreender algumas questões relacionadas aos insucessos de algumas instruções que parecem não funcionar.

A Experiência de Cada Um

Talvez você conheça algum Professor de vôlei que embora instrua seus alunos ou atletas com esmero, alguns conseguem compreender a informação e a colocam em prática com sucesso — e outros não. Parece que tem aluno ou atleta que, não importa quantas vezes você instrua, não funciona. Por que raios?

Na faculdade aprendemos a importância do planejamento, de se avaliar para se encontrar o estado atual dos nossos alunos, de traçar metas claras e realistas. Com o passar dos anos, estabelecemos nossa filosofia de trabalho — nossa abordagem de ensino. Muitos de nós Professores entendemos o jogo através de nossa própria "lente", que molda nosso entendimento e a experiência que temos do esporte: como jogamos, como fomos ensinados, os Professores que passaram por nosso caminho, nossos sucessos e fracassos.

Desconfie sempre de quem diz que existe "o jeito certo de se jogar voleibol."

Por Que "o Jeito Certo" Não Existe

Voleibol é um esporte de natureza imprevisível e quando treinamos, nada mais fazemos do que tentar controlar a imprevisibilidade, o incontrolável. Treinamos para tentar prever o que o adversário fará, como a bola virá em nossa direção, e como reagiremos a inúmeras — talvez infinitas — possibilidades.

O jogo tem uma sequência lógica, mas sempre será imprevisível. Essa é a primeira razão pela qual a frase "esse é o jeito certo" não faz sentido.

A segunda razão reside no fato de que o jogo se apresenta em um ambiente com inúmeras possibilidades de interação — uma relação ecológica entre os atletas, a tarefa, as pistas que o ambiente apresenta e as limitações particulares de cada sujeito.

Imagine que você é um levantador em um momento decisivo do jogo. Você precisa fazer um levantamento a partir de um passe ruim e baixo. Precisa decidir para quem vai levantar: no local mais fácil com um atacante menos confiável, ou no local mais difícil com o seu melhor atacante? Você está confiante? O placar pesa? Cada uma dessas variáveis muda tudo. Não é possível haver um método de ensino que dê conta de todas as possibilidades que podem estar presentes nas inúmeras e imprevisíveis situações de jogo.

Atletas Não São Processadores de Informação

Por muito tempo acreditava-se que o atleta era uma espécie de processador de informações — que, ao se proporcionar vivências diversas e instruir como se comportar corretamente frente a cada situação, isso seria suficiente para que o atleta tomasse a decisão correta quando aquela situação se apresentasse no jogo.

Quantas vezes você tomou uma decisão que sabia não ser aquela para a qual havia "treinado"? E quantas vezes você viu seu atleta não apresentar o comportamento esperado, por mais que o treinamento tenha sido eficiente?

Sinto dizer — na verdade estou aliviado em lhe dizer — que atletas não são simples processadores de informação. Nós nos comportamos de maneira complexa porque nossa interação com o ambiente é complexa. E é justamente esse o ponto que precisa ser explorado em nossas aulas e treinamentos.

O que treinar
Treinar atletas a perceberem as informações do ambiente — aquilo que o jogo "pede" — para que possam se comportar de maneira satisfatória.
Como treinar
Selecionar técnicas e variações da técnica que deem conta de satisfazer o desejo do sujeito de se relacionar com o ambiente — o jogo.
O papel do Professor
Projetar ambientes que estimulem o desenvolvimento das relações entre atleta e jogo, de forma que respostas desejáveis possam surgir.
O foco do processo
Não é o Professor, nem o atleta, nem o jogo isoladamente. É nas RELAÇÕES entre atleta e ambiente, considerando a tarefa de jogar.

Uma Nota Sobre a Técnica

Não estou renunciando a uma técnica básica bem executada. É importante que a técnica básica seja treinada, especialmente no voleibol — um esporte de natureza altamente técnica (esporte de rebatida, não de retenção da bola) em que a regra determina como se manipular a bola, sob pena de perda de rally.

Se eu pudesse pedir para todos os técnicos e Professores de vôlei do mundo para focar em apenas uma questão técnica, essa seria a sequência correta das passadas de ataque: as duas últimas passadas antes do salto precisam ser direita-esquerda para atacantes destros e esquerda-direita para atacantes canhotos. A passada de ataque é uma das questões técnicas mais difíceis de corrigir. Todo o resto é mais fácil. Por favor, trabalhe a mecânica correta da chamada de ataque.

O Jogo Como Método de Ensino

O jogo em si — e seus recortes — é a maneira mais rica de se ensinar o próprio jogo. Pelo menos é isso que a ciência do esporte tem demonstrado. Precisamos contextualizar os fundamentos dentro do jogo o máximo possível, mas não necessariamente focando em um processo linear de estímulo-leitura-memória-resposta.

Precisamos contextualizar os fundamentos no jogo e focar nas interações entre o aluno e o jogo, a partir das pistas que o próprio jogo oferece e das capacidades — e limitações — de cada jogador. O Professor é aquele que projeta ambientes que devem estimular o desenvolvimento dessas relações de forma que as respostas desejáveis possam surgir.

Conclusão: A Beleza do Ensinar

Não há, portanto, um único método, uma única maneira correta de se fazer as coisas. O que há é a compreensão por parte do Professor em saber planejar e proporcionar um ambiente que estimule o surgimento de respostas desejadas.

Os meios e métodos que desenvolvemos ao longo de uma temporada funcionarão — ou não — para aquela determinada equipe, com aqueles determinados sujeitos, naquele momento histórico. A próxima temporada contará com diferentes atletas, ou com os mesmos atletas que já não serão mais os mesmos, pois terão acumulado mais experiências.

"Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio... pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tampouco o homem."

— Heráclito de Éfeso

Não há "o jeito certo". Não existe "a técnica correta". Não existe "o exercício perfeito". O Professor é aquele que, ao ter ciência de que a perfeição não existe, lança mão de seus conhecimentos na busca pela inalcançável perfeição. A jornada pelo belo, pelo perfeito não termina nunca — ao contrário, sempre recomeça. E aí está a beleza do ensinar.

PB
Peter Bristotte
MS, CBV-IV, BSS — Especialista em aprendizagem motora e metodologia do treinamento esportivo. Colaborador do Set Point Podcast e parceiro de Cesar Feijão Benatti no desenvolvimento de conteúdos educacionais para treinadores.

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