Depois de muitos anos atuando no alto rendimento do indoor, em um período de pandemia fiz uma migração para o Vôlei de Praia e desde então venho desenvolvendo meu trabalho com base no conhecimento de ambos. O questionamento que mais recebo é: "Qual a diferença entre eles?"
Baseado nessa dúvida e após um convite que jamais recusaria do meu grande amigo, mentor e um dos profissionais que mais admiro, Cesar Benatti (Feijão), decidi fazer um artigo comparativo — não sobre as diferenças, mas sobre onde essas duas modalidades podem somar uma à outra.
Gostaria de fazer esse artigo de forma conjunta e reflexiva. Convido você a criá-lo comigo. Afinal, como foi dito aqui em artigos anteriores: "O certo existe?"
Contexto Histórico
Com aproximadamente 25 anos de diferença entre a criação do até então conhecido como Mintonette (vôlei indoor), o vôlei de praia passou a ser praticado nas praias da Califórnia na década de 20. O vôlei indoor ganhou força no Brasil a partir de 1923 — mas só na década de 70 se tornou uma potência internacional.
O vôlei indoor gerou mais visibilidade por ter tido maior popularidade mundial. Com isso, o investimento trouxe mais estudos e aprimoramento técnico. Já o vôlei de praia era inicialmente visto como hobby, algo praticado em momentos de lazer — e com o tempo se tornou um esporte de atletas altamente habilidosos. Será que essa descontração tornou o esporte mais aberto ao desenvolvimento da habilidade técnica do atleta, ou foi a forma de jogo em duplas que induziu isso?
Jogabilidade: As Diferenças Básicas
No indoor, um atleta pode estar em quadra e não tocar na bola uma única vez durante o jogo, exceto no momento do saque. No vôlei de praia, isso seria praticamente impossível. A especificidade precoce em uma função no indoor compromete o desenvolvimento de algumas habilidades — como vemos com o líbero e o levantador.
Físico
A exigência física é inegavelmente maior no vôlei de praia — terreno arenoso e de difícil locomoção, sol forte, maior área de cobertura por atleta. No indoor, cada atleta fica responsável por aproximadamente 1,5 metros de raio. No vôlei de praia, o defensor bem posicionado cobre uma área de aproximadamente 30 metros quadrados.
Em contrapartida, no indoor com bloqueadores cobrindo boa área e defensores tecnicamente bons, derrubar a bola tem se tornado cada vez mais difícil — exigindo aumento da potência nos ataques muito além do que no vôlei de praia. Isso explica por que equipes indoor utilizam a areia na pré-temporada como alternativa para desenvolver essas capacidades.
- Potência de ataque
- Tempo de reação
- Velocidade de deslocamento
- Resistência de força
- Capacidade aeróbia
- Leitura de jogo ampliada
Técnica
Por se tratar de um jogo onde qualquer variação de posicionamento pode exigir mais fisicamente, o controle de bola é extremamente fundamental. Um descuido pode custar uma bola fácil ao adversário resultando em ponto de contra-ataque. O grau de exigência por técnica refinada é maior na modalidade de praia.
No ataque, a maior possibilidade de golpes com êxito sem a necessidade de potência amplifica as execuções de variações de força e direção. E chegamos à famosa discussão do toque:
Em minha opinião: um atleta que aprende a tocar na praia, toca em qualquer lugar. Um atleta que aprende a tocar na quadra talvez tenha muita dificuldade na praia. Claro que existem exceções — e tudo depende da exigência do treinador que ensinou no indoor, não permitindo que seu atleta execute o toque de qualquer forma.
Já o bloqueio é mais exigente no indoor — demanda grande deslocamento seguido de salto com equilíbrio e estabilidade, em diferentes direções e com altíssima velocidade. No vôlei de praia, o bloqueio é mais equilibrado e com menos exigência de alcance (altura), mas com grande necessidade de posicionamento e noção de espaço.
Treinamento
Pensando em número de posicionamentos, variações de jogada, especificidade de posições, número de atletas, correções técnicas e sistemas de jogo — o treinamento indoor mostra o quão complexo pode ser. E ainda temos os fatores comportamentais: liderança, comprometimento, espírito de equipe, relações interpessoais.
Um scout é como um exame de sangue: você pode ter em mãos números do que está alterado, mas você sabe o que está acarretando essas alterações? Você leva em conta as condições em que essas avaliações foram apresentadas?
"O jogo de vôlei é cheio de imprevisibilidades e com treinamento apenas tentamos controlar o imprevisto."
— Peter Bristotte
"Não peça taticamente aquilo que seus atletas ainda não conseguem fazer tecnicamente."
— Cesar Feijão Benatti
Seus atletas saberão como e o que fazer para controlar os imprevistos? Construa em seu dia a dia a resposta "sim".
Psicológico e Comportamental
Deixei esse item por último — o vejo como o combustível de uma equipe. Afinal, de que adianta ter uma Ferrari se o tanque estiver vazio?
No voleibol, toda tomada de decisão é fundamental e normalmente feita em menos de um segundo. Toda bola gera sentimento de satisfação ou insatisfação. Todo final de rally carrega uma carga de êxito ou falha.
No indoor, seis atletas dividem essas responsabilidades — com a possibilidade de substituição e um tempo para "reequilibrar". No vôlei de praia, dois atletas dividem as responsabilidades constantes e a impossibilidade de substituição remove esse tempo de análise.
No indoor, conflitos internos podem ser "abafados" por vários membros. Na praia, desentendimentos são diretos e sem possibilidade de abafamento por alguém. Ou seja: ou resolve, ou corrói.
"Os campeões têm que estar confortáveis no desconforto."
— Bernardinho
Conclusão: Somar, Não Separar
- Maior complexidade de organização e treino
- Pressão por resultados e investimentos
- Potência e velocidade exigidas
- Divisão de responsabilidade entre 6
- Maior exigência física global
- Técnica refinada em condições adversas
- Responsabilidade total para 2 atletas
- Altamente exigente nos detalhes
Uma modalidade altamente complexa de forma geral. Outra extremamente exigente nos detalhes. Por que não somar as forças de cada uma ao invés de afastá-las? Grandes clubes e seleções utilizam a pré-temporada na areia para fortalecimento, aprimoramento técnico e minimização de impactos nas articulações.
Em contrapartida, por que não levar a complexidade dos treinamentos indoor buscando formas novas de jogar no vôlei de praia? Não apenas siga tendências — estude, entenda e crie novas tendências.
Submeta os atletas do indoor a exercícios semelhantes ao jogo de praia, aumentando a responsabilidade e exigência técnica de cada um. Crie situações de pressão onde o atleta não possa se isentar em momento algum. Una e aproveite o melhor que cada modalidade tem para oferecer.
E se você ainda tem dúvida, lembre-se: "Existe a maneira certa?"
Reflita.
Quer se aprofundar mais?
Acesse o Clube dos Treinadores e tenha acesso a cursos, masterclasses e conteúdos exclusivos sobre liderança, metodologia e muito mais.
🏐 Entrar no Clube Ouro